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14
dez
homenagem

Homenagem ao dia do Jardineiro

 

O Que se encontra no início? O Jardim ou o Jardineiro? Havendo um Jardineiro, mais cedo ou mais tarde, um Jardim aparecerá. Mas havendo um Jardim sem Jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um Jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de Jardins… (Rubem Alves)

Dia 15 de Dezembro comemora-se o Dia do Jardineiro. E este post é para homenagear todos os Jardineiros que abraçam essa profissão com dedicação. Escolhi para isso o texto do Pe. Alfredo Gonçalves, que traduz com muita sabedoria toda a delicadeza além de toda grandeza de ser “Jardineiro”. E também porque sempre comparei (metaforicamente) o trabalho de semear, o cuidar e o zelar de um jardim com ações que norteiam nossas vidas. O Jardineiro aduba a terra, semeia, poda, tutora, conduz, limpa, cuida do seu jardim e em seu cotidiano, aprende a lidar com fatos que não pode controlar como, fazer chover, fazer brotar, frutificar, florir, parar de chover, de ventar, de gear, eliminar as ervas daninhas que teimam em aparecer… Aprende a esperar o tempo que cada semente precisa para brotar, reconhece as diferenças que existem em cada planta, aprende a aceitar a natureza da Natureza e das coisas como elas são. E assim, o “Jardineiro” à medida que aprende a zelar por seu jardim, ele se realiza em “ser-Jardineiro”. E nesse sentido, ao fazer o jardim, está sempre disposto  a compreender as necessidades do jardim, não só constrói o jardim, mas constrói a si mesmo, pois entende a dinâmica do jardim: “ele é Jardineiro”.

O Jardineiro

Sempre tive uma vontade oculta de ser jardineiro: mexer com a terra, afundar os pés e as mãos em suas entranhas, sentir-lhe o calor e o frio, inebriar-me de seus cheiros, seguir as estações do ano, contemplar o sol e a chuva, lançar a semente e esperar a lenta maturação da vida… Mas especialmente cultivar flores. Quem sabe, um dia, ser uma entre elas!

Mas a profissão de jardineiro tem suas armadilhas. Sem dúvida, é gratificante ver as plantas se erguerem do solo, produzir botões e estes se abrirem em pétalas de diferentes cores e tonalidades. Em pouco tempo, porém, elas murcham, secam, desaparecem. Com a mesma voluptuosidade com que buscam o céu azul, a luz e o ar livre, também se curvam encarquilhadas sobre o chão, morrem e caem no esquecimento. Menos mal que deixam na terra suas sementes e que estas, em potencial, contêm novas flores. Cedo ou tarde, haverão de romper a superfície da terra e se reerguer para a vida.

Outra armadilha é que, após preparar o solo, lançar a semente, e zelar diariamente pela sua gestação, o jardineiro pode surpreender-se com alguma flor que nasce fora do jardim cultivado. Tanto carinho e cuidado, para ver o broto ressurgir em meio ao mato e espinhos, ou entre as pedras do caminho. Flores são seres rebeldes, crescem não raro onde menos se espera, longe de nosso alcance. Às vezes são mais vivas e vigorosas onde a terra é mais agreste.

Ninguém como o jardineiro se dá conta de como a flor é bela e frágil. Ou melhor, bela porque frágil. Oferece seu brilho intenso e colorido, mas sempre provisório. Tão longe quanto fugaz, talvez porque possui uma estranha consciência orgânica de que sua passagem pela vida é breve. Logo terá de desaparecer! O mesmo ocorre com o perfume.A flor exala-o com tanta intensidade que chega a embriagar o viajante que passa. Mas fenece junto com ela. Também neste caso é verdade que, apesar de resistir mal à tormenta, a beleza e o perfume da flor jamais se apagam da memória de quem os experimentou.

Mas o cultivador de flores conhece outros segredos. Sabe que cada uma delas é única, imcomparável e insubstituível. Inútil perguntar qual a mais bonita, a mais sedutora, a mais cheirosa. Todas o são, embora distintas. Ou melhor, todas são belas justamente porque distintas! É a diversidade de formas e aromas, cores e tons que torna encantado o jardim.

O senhor do jardim sabe, ainda, que cultivar flores não é tomar posse delas. Se tentar fazê-lo, mata-as, perdendo-as para sempre. De resto, essa relação com as flores reproduz-se na relação com outros seres vivos, plantas ou animais, como também na relação entre as pessoas. Cultivar implica não em dominar e possuir, mas deixá-las livres. Livres para que outros possam desfrutar de seu conhecimento e riqueza. A posse é a negação do amor.

O jardineiro é diferente do colecionador. De fato, o cultivador de carros de luxo, de pérolas preciosas, de contas bancárias, de objetos exóticos, como também o cultivador de mágoas ou ressentimentos, de ódio ou vingança, torna-se escravo daquilo que cultiva. Constrói a própria prisão. “Onde está o teu tesouro, aí está teu coração”, diz o sábio Jesus. Ao contrário do colecionador, o jardineiro aprende que somente há de colher as flores que cultiva com o toque mágico de suas mãos, rudes e ternas a um só tempo. Mas ele as colhe com o olhar, com o deslumbramento da alma. Prendê-las é condená-las à morte.

E assim, livre e bela, a flor pode entregar-se gratuitamente a todos que visitam o jardim. Seu brilho fala de Deus quando guarda as gotas do orvalho noturno ou abre suas pétalas à luz matutina, quando dança ao ritmo da brisa suave ou oferece seu néctar ao beija-flor, o qual, a seu turno, transportará o pólen para fecundar outras flores, alimentando assim o ciclo interminável da vida.

Unida ao sorriso da criança, ao murmúrio ou ao rugido da água, ao canto do pássaro, à luz longíqua da estrela, ao sol que chega ou que parte, ao olhar de quem ama ou à lágrima de quem ainda é capaz de chorar, aos corações sedentos de justiça ou às mãos que combatem pelos direitos humanos a flor integra a grande orquestra da criação. Instrumentos distintos, que tocam notas diferentes, mas exprimem a beleza de uma sinfonia comum.

Cultivar flores é cultivar relações novas, livres autênticas, transparentes. Relação consigo mesmo, com o outro, com a história de um povo, com o meio ambiente, com o transcendente. essas dimensões, embora distintas, não constituem instâncias cerradas uma à outra. Ao contrário, todas se entrelaçam, interpelam e se integram, se enriquecem e se complementam. O cultivo de uma repercute no crescimento das demais, o descuido de uma significa o esvaziamento de todo o ser.

Como ponto final, vale sublinhar, uma vez mais, a lição da flor: porque é bela, fugaz e frágil, ela brilha e se apaga, revela-se e se esconde, aparece e desaparece, como o amado que se oculta para estimular a busca e nutrir um amor fiel e persistente. (Pe. Alfredo J. Gonçalves)

Parabéns à todos Jardineiros!

Abraços desejosos de que assim como Jardineiros, nós possamos sempre descobrir o ofício de plantar, cuidar e zelar amorosamente da nossa felicidade.

Este post foi publicado no blog Jardim de Siguta e não pode ser reproduzido, sob punição de acordo com a Lei de Direito Autoral nº 9.610 de 1988.

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